Fui uma adolescente daquelas que as pessoas chamam de sensacional, de “fechar o comércio”. Por conta disso fui muito assediada, mas eu era bastante tímida e tinha um pai muito bravo, fera mesmo.
Desta forma, evitava me envolver com os meninos, namorar estava fora dos planos, mas gostava bastante de sair e, algumas vezes pegava carona com algum amigo, quando já era tarde e eu tinha pressa de chegar em casa...
Numa de minhas saídas noturnas com minha amiga (aquela da infância, de cabelos alaranjados), perdemos a hora na danceteria (eu tinha que estar em casa às 11 e já era meia-noite) e estávamos voltando quase correndo para casa.
No meio do caminho, parou um carro, com um amigo dela que eu não conhecia e ofereceu carona. Ele estava no carro e um outro rapaz dirigia. Aceitamos. O único problema foi que o motorista, em vez de nos levar para casa estava voltando no percurso que já tínhamos feito. Eu comecei a ficar super preocupada, falando muito que precisava ir pra casa, porém, os sujeitos não deram muita bola. Disfarçadamente, tirei da bolsa um envelope de sonrisal. Eu sempre carregava um comigo, por conta de uma história que ouvi no colégio, onde um rapaz simulou uma convulsão colocando o sonrisal na boca, só para sair mais cedo das aulas... De repente, uma hora eu poderia precisar do astuto ardil...
E naquela hora, apavorada, com medo do meu pai e com uma bruta raiva dos dois rapazes, resolvi agir.
Comecei a dizer que precisava chegar em casa em dez minutos, que precisava tomar uns remédios, que fazia “tratamento da cabeça”...
Minha sólida amiga, que de burra nunca teve nada, começou a corroborar minha história, mas os rapazes estavam com arte, pensavam que iam tirar uma casquinha. Mas não iam mesmo!
Enfiei o sonrisal na boca, comecei a gaguejar e falar coisas sem nexo e a babar no carro todo...
Eu não fazia idéia que fazia tanta espuma um sonrisalzinho de nada, mas fez!
Acredito que o rapaz que dirigia o carro nunca correu tanto na vida dele, num piscar de olhos eu estava no portão de casa com minha amiga apavorada junto e os sujeitos sumiram feito fumaça...
Minha constante parceira de encrencas não sabia do sonrisal, por isso ficou tão apavorada.
Foi a única vez que usei o sonrisal, mas posso atestar: é tiro e queda.
