Adolescente e sempre "se achando", aliás, como todo adolescente, estava eu trabalhando em uma loja de confecções femininas, no mercado municipal de minha cidade. Quando não atendia fregueses podia sentar-me em um banquinho na porta da loja. E lá estava eu, destilando toda minha cara de enfado eterno, isso, aquela mesma que hoje os "emos" fazem, quando um senhor baixinho, semi careca e com um daqueles sorrisinhos amarelos começou a passear pelo corredor... Vai, volta, lança um sorrisinho (que talvez devesse ser enigmático, mas que na minha tola concepção de sabe tudo, era um sorrisinho tarado, daqueles do tipo "e aí, vamos ao motel?")... Vai, volta, e continua lançando o mesmo sorrisinho... De repente, quando mentalmente eu já o havia xingado de tudo quanto meu extenso vocabulário tosco conseguiu lembar-se, o senhorzinho para na minha frente e o seguinte diálogo se desenrola:
Senhorzinho: você gosta de trabalhar aqui? (sorrisinho amarelo mostarda na cara)
Eu: serve... (cara de bosta adolescente se achando a cereja do bolo)
Senhorzinho: você sabe quem eu sou? (mesmo sorrisinho amarelo mostarda na cara)
Eu: sei sim, é um velho tarado, sem vergonha, que fica tentando cantar mulher bonita e toma no nariz (continuando a me achar a cereja do bolo e agora a rainha da cocada preta também).
O senhorzinho não diz mais nada, guarda o sorriso amarelo mostarda e segue andando pelo corredor...
E, enquanto ele vai indo, meu patrão vem vindo... Cruza com ele no meio do caminho, chega ao meu lado e pergunta: "O que o prefeito estava fazendo aqui?"
Pode???!!!!

