Naquela época a gente chamava aquilo de quarto ano do grupo. Hoje nem sei mais como chamam esse período escolar. Estava eu no quarto ano do grupo quando conheci uma daquelas pessoinhas que vão te acompanhar por toda sua vida, sabe? Daquelas que grudam na gente como chiclete no asfalto quente (não porque sejam grudentas e sim porque o destino acredita que você merece ter alguém assim por toda sua vida)?
Eu olhei para aquela cabeleira cor de cenoura, aquelas pintas enferrujadas na pele translúcida, aquele olhar verde de gato morto e pronto!!!!! Nossa estranha e longa amizade estava selada.
Ela era chamada de troncuda, porque perto daquela meninada toda de 10 anos, sua força física era invejável. A maioria da molecada parecia aquelas fotografias de crianças famintas, envergados, mirrados e magricelas... Eu chegava a ser até meio acorcundada na minha magreza.
Natural que ela fosse a líder de nossa dupla dinâmica, não dava nem pra discutir.
E vou confessar, não éramos a dupla mais querida da classe...
Havia um menino (não sei não, mas acredito que mudou de sexo na fase adulta), o Dudu (nome trocado para preservar-me de um processo), por quem a cara metade da minha dupla caiu de amores.
Acontece que Dudu era apaixonado pela garotinha de cabelinhos encaracolados, dentucinha e mais popular da classe...
A dupla dinâmica entrou em ação. Minha amiga de toda vida tinha a letra bem semelhante à da dentucinha e vai daqui, vai dali, começamos a escrever cartinhas mal educadas para o Dudu, assinando o nome da infeliz criatura dentuça, que, acho que sem saber, feito uma pedra chata, se instalou no caminho de minha parceira, e era minha obrigação estar de acordo com a pintada, ser solidária, sabem como é?
Como todo iniciante na carreira do crime, fomos descobertas, levando puxões de orelha da professora...
Mas ai!!!! Antes fossem somente os puxões de orelha... Fomos comparadas a assassinos (eu nem imaginava que assassinos escreviam cartas anônimas!).
No dia seguinte, após ter sido execrada na praça pública que era a sala de aulas, não fui à escola, me sentia extremamente amedrontada, olhava no espelho o tempo todo afim de verificar se eu já me parecia com uma assassina.
Meu irmão do meio, o Marco (nunca foi Marcos porque era um só), - gente fina esse meu irmão! - ficou encarregado de avisar a professora que eu estava doente, com dor de barriga... E, a partir daí, estar na escola era um verdadeiro martírio.
A anta do meu irmão chegou na minha classe, pediu licença e, na frente de todos os alunos, disse que eu não pude comparecer na escola porque estava com “caganeira”...
Ninguém pode imaginar o que foi estar na minha pele a partir desse dia... Naquela época ainda não tinham inventado esse tal de "booling"...
Minha parceira tornou-se a “paçoquinha assassina” e eu “assassina com caganeira”. Estivemos segregadas até o final do ano letivo, o que, hoje, acredito ter solidificado nossa amizade.

Comente
Postar um comentário
Por gentileza, seja educado. Obrigada pelo comentário.