Na minha infância, por volta dos anos 70, a distinção entre ricos e pobres era muito bem delineada, não existia essa tal de classe média . Ou você era rico, ou era pobre.... E eu, já dá pra imaginar, era pobre, assim como minha amiga inseparável (a de cabelos cor de cenoura crua). Acontece que, na classe em que estudávamos existiam muitas crianças ricas, porque a escola situava-se, geograficamente falando, na divisa de dois barros: o bairro acima da escola era dos ricos e o bairro abaixo da escola era dos pobres.
E era assim que, ocasionalmente, éramos convidadas para as festinhas de aniversário de coleguinhas ricos. Não dava para perder essas festinhas: tinha refrigerante, enquanto nas nossas tinha ksuco; tinha brigadeiros, bolo com recheio e cobertura, beijinhos e cajuzinhos, pirulitos, línguas de sogra e bexigas... As nossas festinhas, além do ksuco, tinha um bolinho simplezinho (sem cobertura), algumas balas e, eventualmente tinha pizza de sardinha.
E fomos convidadas para uma festinha que prometia tudo de bom, daquelas que, fizesse um calor de quarenta graus, iríamos de japonas de nylon (com bolsos fundos), para trazer para casa uns brigadeiros, pedaços de bolo, salgadinhos, surrupiados na surdina e escondidos, sem embrulhar, nesses bolsos fundos...
Mas faltava o presente e, sem presente, de jeito nenhum que a gente ia lá...
Passamos o dia inteiro pensando num presente e, de repente, no meio dos brinquedos velhos de minha amiga, encontramos um vidrinho minúsculo, vazio e com tampinha. Lavamos bem o vidrinho (que ficou quase limpo) e enchemos com um pouco do perfume “Seiva de Jasmim”, da mãe da minha parceira de bizarrices.
Para ter cara de novo, arrancamos um selinho escrito em outro idioma, dos fundos de uma bandeja de inox, da cristaleira da minha amiguinha. Embrulhamos o vidrinho e, de noitinha, lá fomos as duas para a festinha.
Quando a aniversariante abriu nosso presente, olhou, colocou contra a luz, abriu, cheirou e, na sua grande educação de menina rica nos disse: “- não é por nada não, mas parece que tem umas terrinhas no perfume...”
Fingi que não tinha ouvido, fui saindo de fininho, quando uma de nossas colegas de classe, que também morava na parte pobre, veio com essa de que a mãe dela tinha um perfume igualzinho aquele e era daquele jeito mesmo... Salvou a pátria, mas não creio que a aniversariante algum dia usou aquele “perfume”.

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