Já contei uma porção de vezes aquela ladainha toda de que fui uma criança pobre, mas o que eu ainda não falei foi que meu pai tinha dois empregos; eu, meu irmão e minha irmã dormíamos em sofás na sala de casa porque só havia um quarto; minha mãe saia para pagar as contas de casa no dia do pagamento e quando voltava corria lavar as roupas que usou porque só tinha aquelas para sair; nosso cachorro era um livre e lindo vira-latas (que hoje se diz srd - sem raça definida); no meu quarteirão existia apenas um vizinho que tinha um "pé-de-bode", também conhecido por "chimbica"; só comia maçã quem ficava doente e por aí vai.... Mas não se comova, por favor não chore até a exaustão por mim, porque só contei essas coisas para que vocês compreendam - ou não, a história que vou contar. Como todo mundo pode perceber, em termos materiais, se algum ladrão resolvesse dar o ar da graça, com certeza mudaria de profissão. Aí vem um espírito de porco e diz: você era pobre, mas havia amor, afeição, muito riso, liberdade etc etc etc.. Só que ladrão, normalmente, não rouba esse tipo de riqueza, se é que me entendem. Pois bem, apesar disso tudo, meu irmão, meu esperto irmão, vivia escutando barulhos no quintal depois que as portas eram trancadas e a luzes apagadas. Isso era fatal! Era só chegar a hora de dormir (não vou dizer ir para a cama, porque, como já esclareci, a gente dormia no sofá) e aquela cabecinha começava a tecer sua fantasia imutável de que havia um ladrão no quintal. Hoje fico pensando: que raio de ladrão viria toda noite num quintal deserto de uma casa pobre, sem nada para ser roubado???? E o que o meu esperto irmão fazia? Escrevia um bilhete, com um lápis rombudo, na sua caligrafia de recém alfabetizado (ou semi analfabeto, embora isso seja politicamente incorreto): TEM ALGUÉM AÍ? COMO VOCÊ SE CHAMA?, colocava por baixo da porta, primeiro o lápis (vai que o ladrão não tivesse um lá com ele naquela hora, né?) e depois o bilhete (ficava segurando a pontinha do bilhete, senão não poderia puxar de volta) e ficava lá no chão esperando, esperando, esperando e esperando pela resposta. Pelo que me lembro, o ladrão jamais respondeu. Mas eu também fico pensando cá com meus botões: O que será que meu irmão faria se o ladrão respondesse???????
Todo mundo tem memórias bizarras...AVISO IMPORTANTE: Este blog está protegido pela Lei de Direitos Autorais. A reprodução, no todo ou em parte, do conteúdo aqui postado estará sujeito às penalidades legais. O fundo usado no blog é reprodução de uma tela de Miró - "O Carnaval de Arlequim” (1924-25).
A gente tem isso desde a primeira infância...
Eu tenho todas as memórias bizarras imagináveis.
Entretanto, para tê-las foi necessário a existência de uma porção de pessoinhas que, se não existissem por obra de Deus, eu, por certo, não teria como inventá-las. Aquelas pessoinhas de forma única, acho que todos sabem do que eu falo...
Enfim, se a minha gaveta de memórias está entupida de memórias malucas, devo isso a essas pessoinhas incríveis, esses meus "presentes de Deus", que acredito que vieram a este mundo unicamente para trazer esse colorido exótico à minha existência.
Então, vai meu "abraço de urso" pra Regina, Marco (não é Marcos porque, segundo ele, é um só), Deise, Bel A., Osmane, Rosi, Tarlão e todos os outros que recordarei no momento oportuno.
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