Nosso contato já não era grande... amiúde nos víamos ao acaso. E quando isso acontecia, eramos sempre os mesmos, atemporais, como se a passagem dos anos não nos tocasse... A gente se gostava sim, ele era parte da minha familia de "não sangue", não parentesco e muitos outros nãos... Nossa infância e adolescência foi entrelaçada porque ele era o irmão mais velho de minha melhor amiga... Brigamos muito, torcemos muito um pelo outro, nos gostamos muito... Amiúde nos viamos, porque a fase adulta levou cada um de nós aos seus próprios mundos. Fomos tecer nossos castelos, cavar nossas oportunidades, inventar nossas familias... E, nas vezes em que nos encontrávamos eram sempre os olhos a sorrirem primeiro, isso vinha antes de qualquer palavra vã, qualquer gesto mundano... Porque esse nosso sorriso do olhar deixava a solta os jovens que fomos, nossa selvageria, nossas brigas, nossas histórias secretas - o furto dos seus cigarros, a tentativa tola de suicidio de sua irmã, sua agitação e minha irreverência, as suas dores e as minhas lutas, nossas danças espaçosas na Ferrosom, nossas tentativas, nossos desacertos, o mundo lindo e impagável de nossas bizarras memórias.
Ontem Deus te quis de volta meu amigo e eu nem pude dar-lhe o adeus que merecíamos... Mas, se guardei comigo o beijo de adeus em sua face, também você levou consigo o sorriso do olhar que invariavelmente partilhávamos. Você deixou saudades, memórias, histórias, caminhos marcados pelas tentativas todas, amores vãos.... E eu só posso desejar que você seja feliz em sua nova morada e que aguarde, porque, fatalmente, dia desses acabaremos nos reencontrando num plano mais elevado, ainda mais maravilhoso do que este onde tecemos nossas bizarras memórias. Tarlão, meu querido, aqui o adeus que eu não pude lhe dar.



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