Próximo à minha casa residia uma familia que tinha vindo lá do Paraná. Dona Joaquina, seu marido e a filha pequena, Cida...
Dona Joca tinha um temperamento muito dificil, então quase ninguém brincava com a "Tidaaaa", como ela costumava chamar sua filha.
O tempo foi passando, e Dona Joca perdeu o marido. Anos depois sua filha "Tidaaaaa", que sempre foi muito maltratada por ela, casou-se e nunca mais apareceu...
Dona Joca foi ficando cada vez mais debilitada, andava pouco, quase não enxergava, mas continuava com um temperamento dificílimo, não deixava ninguém entrar em sua casa, só atendia quem queria e no portão.
Um vizinho, alma caridosa que era (mentira: sua esposa é que o obrigava a isso rs rs rs), estava sempre passando na casa da Dona Joca, levando para ela pão feito em casa, docinhos, pegando suas contas de água e luz para efetuar pagamento.
Um dia, a esposa desse vizinho resolveu dar uma festa de aniversário para Dona Joca e avisou toda a vizinhança para levarem refrigerantes e salgadinhos que ela mesma faria um bolinho.
Necessário dizer que para a criançada do bairro isso era um prato cheio: nunca nenhum de nós havia entrado na casa da Dona Joca, um casão enorme... Entre nós sempre criávamos histórias onde a Joca guardava o cadáver do falecido, seu Lavinio, numa bacia, no banheiro da casa... De vez em quando também inventávamos que ela era uma bruxa com uma criação de morcegos chupadores de sangue...
Enfim, essa era a chance de desvendarmos os mistérios da Dona Joca.
No dia do aniversário formou-se uma fila enorme no portão da casa da Dona Joca, mas ela não queria deixar ninguém entrar. Então, a vizinha e seu marido foram lá, conversaram com ela, mostraram que todos traziam salgados e refrigerantes e, enfim, Dona Joca abriu os portões de sua casa para a vizinhança.
Além de ser uma casa semi abandonada, triste e suja, nenhuma de nossas histórias confirmou-se, é lógico...
Estavamos todos comendo e bebendo quando de repente, a vizinha bondosa saiu correndo aos berros para fora da casa. Todo mundo correu para a cozinha: la estava Dona Joca, sentada, com uma esfiha na mão, alimentando uma enorme ratazana...
Ela olhou para todos sorrindo e disse: coitada, ela se assustou com meu gatinho...


Só por Deus! Até que no fundo, bem no fundo, D. Joca era uma boa pessoa.
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